Movidos por fé, obsessão ou desespero, Devotos não recuam diante do abismo.
Eles já tocaram o inexplicável. Sobreviveram. E continuam rezando para que ninguém mais precise fazer o mesmo.
Antes, era uma sacerdotisa. Depois, uma exorcista informal. Hoje, uma mulher com olhos e mãos marcados com sigilos que sangram quando ela alcança um nível superior de concentração, típico de rituais antigos e muito poderosos. Era conhecida como “a Devota”.
Chamavam-na de Devota, mas os cultos antigos a chamavam de “a portadora das palavras que não devem ser ditas”.
Ela sobreviveu ao Ritual de Kar’Sul, quando todos os outros Devotos foram engolidos por uma luz invertida. Desde então, algo dentro dela mudou. Ela passou a ouvir orações em línguas mortas… feitas por vozes que não queriam ser salvas.
Mas ela rezava mesmo assim.
Em uma catedral abandonada na Polônia, a Devota encontrou o primeiro fragmento do Livro do Fio Trêmulo — uma escritura esotérica que muda toda vez que é lida.
Ali, descobriu os nomes verdadeiros de sete entidades seladas sob os ossos da humanidade. Um deles: Xu-Thanid, o Sussurro Que Respira Dentro das Palavras.
Ela acreditava que, com fé, com palavras corretas, com o ritual exato, era possível conter esses horrores. Não destruí-los — ela sabia que isso era impossível. Mas impedi-los de acordar por mais uma geração.
Mesmo que isso a destruísse no processo.
Em uma de suas viagens, a Devota passou por Dunroath, um vilarejo isolado que o Observador também investigara meses antes. Lá, ela encontrou paredes cobertas de símbolos riscados às pressas — semelhantes aos que viria a ver depois em documentos disponibilizados na internet, por quem soubesse o que estava procurando.
O chão estava coberto por sal negro e unhas humanas. E em um círculo ao centro, o nome “Executor” gravado em sangue.
Ela entendeu que não estava sozinha.
Havia outros. Cada um lidando com o mesmo horror… mas de formas diferentes. Alguns observavam. Outros decifravam. Alguns esmagavam.
Ela? Ela orava.
Tentava selar. Sustentar. Acreditar.
Foi no subsolo da Catedral de Vidro, onde convergem linhas de energia esquecidas, que a Devota realizou um último ritual: O Chamado da Tríade Fragmentada.
Ela precisava confirmar: o horror estava se aproximando. O véu entre os mundos se tornava frágil.
Durante o ritual, três visões surgiram:
Ela viu os outros. E soube que a última parede estava para ruir. Anunciada por um som de disparo no eco do além.
A Devota sumiu semanas depois.
Tudo o que restou foi um altar improvisado em um casarão abandonado. No centro, uma vela acesa que não se apagava com o vento e um pergaminho escrito à mão:
“Não somos heróis. Somos rachaduras tentando segurar a represa. Eu rezei por todos nós. Não sei se foi o bastante.”
Em uma sala ao lado, símbolos semelhantes aos do Hermeneuta cobriam as paredes. Sobre a mesa, uma marreta com sangue seco e um gravador contendo os últimos passos do Executor.
E no espelho, a frase:
“O selo está enfraquecendo. Quando cair, nós estaremos lá. Todos nós.”
Agora há rumores em fóruns ocultos. De que cinco figuras aparecem em sonhos compartilhados. Cada uma representando um aspecto da resistência ao inominável.
Cinco peças deslocadas em um tabuleiro cósmico que ninguém controla. Mas… talvez, só talvez… Juntas, elas sejam suficientes para atrasar o Fim.
“Mesmo que sejamos quebrados, ainda podemos conter o horror. Com fé. Com dor. Com olhos abertos." — A Devota